Quando o que resta é pouco, horas ou minutos. Quando a isto se chama 'o fim das coisas' ou de ti. Chamo assim, porque se acabam as possibilidades de se fazer diferente, as minhas possibilidades. Mas recordo-me de ti para crescer.
Quem queria, conheceu-te. E eu a ti, um pouco.
Comigo partilhaste em jeito de resumo, contos de uma vida dura, onde recordo o trabalho e a solidão de todos os teus dias. Dificil, suponho. Mas vivida com gosto e força, a mesma que nos deste a conhecer na hora de nos deixares. Todos assistimos a essa vontade de ficar naquela hora tão óbvia de ser o fim. Sim, todos sabiamos do fim, menos tu, mas não foi culpa tua.
Vou-te contar uma coisa, que gostava de te ter contado antes. Mas sei que não é tarde e que vais gostar de saber que se pode estar só e acompanhado de muitas maneiras diferentes. Esta é uma forma de perceberes quem esteve contigo ou quem te deixou sossegado na tua solidão amada.
Deixa-me, então fazer um exercicio contigo, agora que me consegues acompanhar, livre dessa cama que já não te prende, nem te faz doer a corpo.
Põe-te aqui ao meu lado, aqui mesmo aos pés desta cama, que agora é de 'outro', assim como foi tua. O que vês? Vês tudo, não ê? Vês o homem ou a mulher: a cabeça, o peito, os braços, as pernas (mesmo que cobertas pelo lençol e pelo cobertor).
Agora chega mais aqui perto. Vem para o lado da cama, chega-te mais para a cabeceira. Isso assim! E então, o que vês? Eu vejo
... as imperfeições do rosto. Aquela cicatriz que não sabes explicar à partida, mas que tens curiosidade e perguntas e ficas a saber de uma estória fantástica que te rouba 5 ridículos minutos do teu dia mas que te deixa horas a pensar.
... os olhos e as lágrimas que deslizam pelos cantos dos olhos em direcção ao cabelo.
... o cheiro que se é bom ou mau pouco importa, mas que sentes que é de uma pessoa igual a ti.
... a boca onde ouves os gemidos baixinhos, que me confunde porque nem sei se é da boca que vem o som ou do coração, ou do corpo todo.
Agora recorda o tempo em que o 'outro' que descansa nesta cama, eras tu. Quantos foram os que escolhiam os pés da cama e os que preferiam os lados da mesma? Quantos hesitaram e escolheram os pés e os que hesitaram e escolheram os lados. E ainda aqueles que nunca quiseram escolher e ficaram atrás da cortina. Ou os que se ficaram pelo corredor e nem perceberam que podiam escolher.

Culpa tua e culpa minha. Minha porque também eu estive contigo e nunca lhes expliquei isto dos 'lados das camas'. Culpa tua porque nunca os chamas-te a ti. Talvez não o quisesses, pois estavas habituado demais a estar só. Tu e o teu rádio de antena e aquela estação de rádio e aquele volume certo.
Por tudo isto e outras coisas,
Obrigada.
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