Onde acabou se escondeu o sentimento que me ajudaste a descobrir, quando os teus olhos se cruzaram com os meus, naquela noite de fumo, onde só se via o necessário, o que tinha que ser visto. Ambiente de música, álcool, corpos quentes, movimentos sedutores. Encontrámo-nos, apaixonámo-nos, desejámo-nos, casámo-nos e agora? A culpa terá sido nossa. Injusta seria, se só a ti delega-se este fundo, este ardor que consome o meu coração por te ter perdido a ti e aos castelos e princesas que construímos no nosso imaginário durante aqueles dias que sentíamos curtos, tamanha era a vontade e o desejo de nunca adormecer, de nunca te perder de vista, de nunca te deixar de sentir. Fazias-me bem, sempre te disse. Hoje fazes-me falta. Não vivo sem a tua indiferença que nos separa até na cama que partilhamos à falta de alternativas. Não queríamos, não estava planeado, nem previsto nos nossos piores pesadelos, mas aqui estamos nós, de cabeça baixa, a comer frente a frente, a menos de um metro de distância, mudos de palavras e até de sentimentos. Encontrámo-nos, apaixonámo-nos, desejámo-nos, casámo-nos e agora somos uns estranhos perfeitamente adaptados ao que outrora dissemos sem hesitação “…Não quero isto para mim. Não vou nunca viver assim. Eu sei que não és feliz, porque não te separas do pai?...” Porquê? Eu sou capaz de responder-me. Continuo assim porque acredito que o passado não seja só isso mesmo, porque me acomodei e bem, porque jurei fidelidade à estabilidade, ao normal, ao que sempre aconteceu e é. E vive-se, não acho que seja uma situação incomportável quando somos capazes de beber do passado para sobreviver no presente e ter forças para enfrentar o futuro. Quanto a ti, que comes a comida que sempre te fiz sem nada me dizeres, nem obrigada embora me possa assim sentir, continuo a querer-te ao meu lado porque dependo desta (falsa) esperança, da necessidade de chorar por nós, de viver com o que o destino me reservou. Encontrámo-nos, apaixonámo-nos, desejámo-nos, casámo-nos e agora queremos viver assim, não me condenem, nem a ele.