domingo, julho 30, 2006

e agora?


Onde acabou se escondeu o sentimento que me ajudaste a descobrir, quando os teus olhos se cruzaram com os meus, naquela noite de fumo, onde só se via o necessário, o que tinha que ser visto. Ambiente de música, álcool, corpos quentes, movimentos sedutores. Encontrámo-nos, apaixonámo-nos, desejámo-nos, casámo-nos e agora? A culpa terá sido nossa. Injusta seria, se só a ti delega-se este fundo, este ardor que consome o meu coração por te ter perdido a ti e aos castelos e princesas que construímos no nosso imaginário durante aqueles dias que sentíamos curtos, tamanha era a vontade e o desejo de nunca adormecer, de nunca te perder de vista, de nunca te deixar de sentir. Fazias-me bem, sempre te disse. Hoje fazes-me falta. Não vivo sem a tua indiferença que nos separa até na cama que partilhamos à falta de alternativas. Não queríamos, não estava planeado, nem previsto nos nossos piores pesadelos, mas aqui estamos nós, de cabeça baixa, a comer frente a frente, a menos de um metro de distância, mudos de palavras e até de sentimentos. Encontrámo-nos, apaixonámo-nos, desejámo-nos, casámo-nos e agora somos uns estranhos perfeitamente adaptados ao que outrora dissemos sem hesitação “…Não quero isto para mim. Não vou nunca viver assim. Eu sei que não és feliz, porque não te separas do pai?...” Porquê? Eu sou capaz de responder-me. Continuo assim porque acredito que o passado não seja só isso mesmo, porque me acomodei e bem, porque jurei fidelidade à estabilidade, ao normal, ao que sempre aconteceu e é. E vive-se, não acho que seja uma situação incomportável quando somos capazes de beber do passado para sobreviver no presente e ter forças para enfrentar o futuro. Quanto a ti, que comes a comida que sempre te fiz sem nada me dizeres, nem obrigada embora me possa assim sentir, continuo a querer-te ao meu lado porque dependo desta (falsa) esperança, da necessidade de chorar por nós, de viver com o que o destino me reservou. Encontrámo-nos, apaixonámo-nos, desejámo-nos, casámo-nos e agora queremos viver assim, não me condenem, nem a ele.

sábado, julho 15, 2006

"eu não penso sempre nisto... mas às vezes!..."

o que eu acho, é que antes doía mais. Antes a situação assemelhava-se a uma ferida que se ia abrindo lentamente, testando as nossas capacidades de adaptação aquela nova condição multidimensional. Eram notórias as reacções díspares que uns e outros manifestavam: com mais medo ou sem mostrarem fraqueza, tristes ou estranhamente contentes...passou-se!.. Este mal estar era ainda mais sufocante quando, através daquele espelho, víamos sorrisos, abraços, brincadeiras, choradeiras... um vida recheada de muitas coisas boas!...
Agora, encontramos vestigios de uma dor que se sentiu em tempos. Claro, que ao procurarmos no baú das memórias o que 'foi', não encontramos apenas sofrimento. Afinal, seria injusto espremer de uma fase da vida, um sumo amargo de uma fruta que julgo ter saciado tantos de nós. O que não posso negar e que, obviamente, se reflecte neste meu pensamento, é que sumo a que eu hoje tenho acesso, é o mesmo desde há muito tempo e, como a maioria dos produtos alimentares, degrada-se perde qualidade, deixando um sabor desagradavel na boca, pois, desde então, mais nenhum chegou perto, se quer, dos meus lábios.
Sem culpas, nem bodes espiatórios, afinal já não temos idade para isso, ficam só as 'dores' ou os seus vestígios e, também, a esperança que volte a nascer um outro fruto que queira ser partilhado por, e entre nós.
E sim, também concordo: houve muitas potencialidades desperdiçadas no mundo do que é e do que podia ter sido.