segunda-feira, março 27, 2006

V i a g e m A u t o c a r r o

Uns passavam por mim, outros empurravam-me. Tudo sem sentirem, sem verem, sem… mas eu sentia-o bem na pele, e também naqueles olhares. Queria sair dali, mas aquelas vidas aparentemente agitadas que voavam por aquele autocarro, envolviam-me na sua realidade feita também por mim. Em comum, encontro nelas o mesmo desejo e a mesma inviabilidade absoluta de o cumprir, pelo menos até à próxima paragem de destino: à minha e à delas. Mas hoje é daqueles dias em que tudo o que faz parte de mim por dentro, grita por silêncios, por nadas e por ‘ninguéns’. Sem efeito, como de costume.
Recorro à janela e perco-me no que os meus olhos se vão fixando aleatoriamente, num corre-corre de foca e torna a focar: ervinhas que crescem junto dos passeios, aquela árvore no meio daquele descampado, as marcas rodoviárias pintadas no pavimento e, por fim, os feitios divertidos das nuvens… Sim, ainda deu para sorrir por breves instantes e ficar feliz, afinal consegui sair dali, sair de mim: sair!
Mas as pessoas, sim porque hoje quero culpá-las a elas de tudo o que é mau e ruim, só me incomodavam: com o olhar, com o toque, com cheiro, com a voz, com a dor…
Finalmente sente-se a inércia que antecede mais uma paragem e um abrir das portas. O autocarro pára e saio ali. Corro para casa, porque hoje até as cócegas dos pinguinhos de chuva me irritam.
Suspiro e meto a chave à porta. Abro-a e recebo-ME de braços abertos na minha casa: “Que saudades Patrícia!...”.

2 comentários:

Anónimo disse...

:) gostei muito..."que saudades patrícia!"

Anónimo disse...

Super color scheme, I like it! Keep up the good work. Thanks for sharing this wonderful site with us.
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