…uma viagem, duas pessoas, um carro, numa qualquer quinta-feira, de um mês sem importância, de um ano igual a tantos outros. Dados de uma ‘história’ que não são mais do que banalidades, tendo em conta o número de vezes que é vivida, e em que noutras tantas, se morre…
7h da manhã e tudo parece pronto. “Vamos?” Mas antes, a despedida dos que ficam. Depois, é fazerem-se ao caminho.
Auto-estrada Número 1, vulgarmente conhecida como A1. Pouco transito. Ainda bem! Mas há um pouco de nevoeiro. Sim, no início era só isso mesmo: um pouco de… Quilómetros idos, é-lhe dada a conotação de ‘cerrado’, de muito ‘cerrado’, de insuportavelmente cerrado, fazendo emergir inclusivamente, uma ligeira sensação de perigo.
A atenção é triplicada: é necessário contar com os automobilistas que parecem que conduzem num tempo de sol e sem nuvens no céu, como também com os que se esquecem que a velocidade mínima permitida é de 50 km/h em auto-estrada, e principalmente com os que não se preocupam em serem avistados pelos outros – iluminação! – ‘pormenor’ que provavelmente nunca terão ouvido falar e cuja importância desconhecem...
Seguem viagem. Faixa central. De repente avista-se o impensável: a 20m (visibilidade máxima que havia na altura), um homem (que mais parecia uma sombra surgida a partir de um fundo branco) a gesticular aflitivamente na berma qualquer coisa que indicava aos que por ali passavam, a mudança RÁPIDA para a via mais à esquerda.
Como é sabido, antes de pudermos mudar de via é necessário confirmar a circulação de veículos na mesma. (Considerem novamente a existência de uma visibilidade máxima de 20m, o facto de se tratar de uma auto-estrada com velocidade máxima é 120km/h, entre outras coisas…
O tempo de certificação, embora com uma duração de 2/3 segundos, evidenciou-se perigosamente excessivo: à frente, a menos de 10 metros, uma camioneta tenta mudar da via mais à direita para a central, pois há um acidente!
“Cuidado! A camioneta!” foi dito.
“Temos que passar agora, a velocidade e a distância impossibilitam-me de parar!” foi pensado.
Passaram mesmo sem a certeza de que não vinha nenhum carro, mas tinha de ser. Agora estão na faixa da esquerda. A velocidade era reduzida. Foi possível ver antes de ultrapassar o local do acidente, carros destruídos e amontoados: uma carrinha e um ou dois carros ligeiros (foi imperceptível pelo estado de destruição).
Mas o pior seguiu-se: encoberto pela carrinha, havia um cenário de morte. Faltam as palavras para descrever o horror… Havia mais uma camioneta envolvida, com duas pessoas debaixo de uma das suas rodas, ‘semi-despidas’, corpos sem reacção, sem um movimento, sem posição anatómica… “Não quero olhar mais! Não consigo…” Ao susto inicial junta-se agora sentimentos de horror, mais a intenção de ajudar, o medo de ali permanecer, o perigo que é encostar na berma dado o BRANCO impenetrável que nos envolvia… tudo junto! Fica-se num leve estado de choque. Seguindo-se depois a tentativa de assimilar tudo o que se viu, viveu e ainda se sente…
Na TV a notícia: "choque em cadeia na A1, 80 carros envolvidos, 3 mortos, 1 acidentado em estado muito grave..."
Comentário final: “Mãe tivemos sorte…”, “É… tivemos muita sorte mesmo!”
1 comentário:
Interesting website with a lot of resources and detailed explanations.
»
Enviar um comentário